4 fatores que encarecem a cerveja artesanal

Maltes em exposição

Seria uma questão de qualidade? Seria uma questão cambial? Impostos? Ou uma combinação de todos estes fatores que encarecem as cervejas?

Ultimamente temos falado e ouvido falar do boom das cervejas especiais no Brasil, mas o assunto tem vindo acompanhado da questão preço. Dessa forma, muitas pessoas me questionam sobre os fatores que encarecem a cerveja artesanal.

Em primeiro lugar, vamos analisar alguns fatores que influenciam o custo do produto. Das matérias primas envolvidas, apenas o lúpulo é exclusivamente importado. Mas o malte de cevada, mesmo o de produção nacional, acompanha a cotação internacional. Ou seja, a variação do câmbio afeta o custo direto da cerveja.

Os outros custos industriais, assim como os custos indiretos, são rateados pelo volume total da cerveja produzida. Quer dizer, quanto maior o volume de produção, menor é o custo agregado a cada litro. Em outras palavras, se produzo pouco volume o custo que recai sobre cada litro é maior. Apenas essa questão (dos custos) já explica porque uma cerveja produzida por pequena cervejaria é mais cara do que outra produzida por grande cervejaria.

A segunda parte da explicação tem a ver com ingredientes. As receitas das chamadas cervejas “especiais” (em geral as que não são Pilsen) contêm outros ingredientes, além de malte e lúpulo, como temperos, frutas, chocolate , etc, aumentando o custo unitário ainda mais.

Saiba mais: Guia da regulamentação da cerveja artesanal

Finalmente, temos a crueldade tributária brasileira.  Por um critério polêmico, a tributação sobre bebidas no Brasil parte do princípio de que toda a cadeia produtiva, distributiva, comercializadora e consumidora de bebidas é sonegadora. Sendo assim, o fabricante deve recolher os impostos de toda essa complexa rede de empresas. Ou seja, os impostos pagos pela cervejaria são calculados sobre o valor de venda da bebida no último ponto da corrente: o consumidor. Desse raciocínio perverso resulta que cerca de 70% do preço de venda da cerveja na porta da fábrica são impostos, recolhidos na fonte. Dessa forma, a cerveja “especial”, que é o nicho de mercado dos pequenos fabricantes, chega ao consumidor com um valor três vezes maior do que poderia chegar.

E aproveito para esclarecer: o parâmetro não é a qualidade, já que todos os fabricantes, pequenos ou grandes, cuidam da qualidade de seus produtos, indiscutivelmente. As diferenças são comparáveis as escolhas entre presunto comum ou presunto Parma; uísque comum ou uísque 12 anos; espumante comum ou Veuve Clicquot; e por aí vai.

“…aproveito para esclarecer: o parâmetro não é a qualidade, já que todos os fabricantes, pequenos ou grandes, cuidam da qualidade de seus produtos, indiscutivelmente.”

Como, em última instância, o que se apresenta ao consumidor é a experiência sensorial, ficam postas as questões fundamentais: o benefício versus o custo, compensa? O valor agregado em uma cerveja “especial” vale a pena o preço adicional? Estou disposto a pagá-lo?

Resumo dos ofensores de custo:

1 Insumos importados que tem cotação atrelada ao dólar. Ou seja, qualquer variação cambial influencia no custo do produto final
2 Volumes de produção mais baixos implicam em maiores custos por litro de produto produzido
3 Ingredientes e insumos diferenciados que compõe a receita das artesanais elevam o custo do produto final
4 Alta carga tributária. Embora a carga tributária incida sobre todos do setor, esta tem maior influência nos custos das cervejas artesanais pois quase sempre estão ligadas a um pequeno fabricante

Espero ter ajudado na compreensão das diferenças “especiais”. Saúde!
Ronaldo Morado