Brasil e Colômbia: a aventura da cerveja artesanal

Balcão de um dos inúmeros pub espalhados por Bogotá

Até o final da década de 70 a produção de cerveja artesanal em casa era proibida nos EUA, ainda como legado dos tempos da Proibição (década de 20). A ilegalidade perdurava mesmo com a produção de vinho caseiro liberada desde 1933, o que era bem incoerente. Após pressão e lobby junto ao senado federal por parte de um grupo de cervejeiros caseiros da Califórnia, o presidente da época (Jimmy Carter) assinou uma lei para legalizar a produção em 78, que passou a valer de fato em 1979. Naquela época ninguém imaginava que estavam iniciando uma verdadeira revolução no mercado local de cervejas e até mesmo no mundo, no que posteriormente viria a ser reconhecida inclusive como uma nova escola cervejeira.
A liberação da produção caseira nos EUA permitiu a produção de até 200 galões/ano de cerveja para as famílias com dois ou mais adultos e de até 100 galões para as residências com apenas um indivíduo adulto. É algo próximo a ter 3 latinhas disponíveis por dia por adulto. Ou seja, nada que fosse pra ganhar dinheiro vendendo a produção para a vizinhança, porém podemos dizer muitas das melhores cervejarias norte americanas da atualidade vem deste berço.

Galões Litros Litros/dia Latinhas/dia por adulto
100 378 1,05 3,5

Brasil e Colômbia

No Brasil a coisa é diferente. É proibido produzir cerveja artesanal em casa, pois a legislação que regulamenta a produção de cerveja estabelece que a produção deste tipo de bebida só pode ser realizado por estabelecimentos liberados pela agência de vigilância sanitária. Na verdade, a produção caseira não é regulamentada porém tão pouco pode ser proibida, desde que não haja comercialização do produto. Este sim é proibido sem as licenças citadas anteriormente. No entanto, mesmo com esta legislação nebulosa em torno da cerveja artesanal no Brasil, os cervejeiros caseiros são milhares e crescem mais a cada dia, produzindo praticamente todos os estilos existentes e impulsionando o surgimento de negócios legais como bares, restaurantes, distribuidores e mesmo cervejarias completas. Entretanto, por questões burocráticas, de interpretação da legislação, do amadorismo natural do setor e a necessidade de grandes investimentos de capital o mercado se desenvolve devagar. Mesmo assim o Brasil está na vanguarda deste mercado na nossa região.

Na Colômbia, onde estive de férias recentemente, após longa busca por uma cerveja acabei em um pub na cidade de Medelim, onde encontrei algumas cervejas de fabricação própria.

Uma Bohemian Pilsner acompanhada de chorizo com legumes na brasa
Uma Bohemian Pilsen acompanhada de chorizo com legumes na brasa

Provei algumas que pude e quase no final o rapaz do balcão me ofereceu uma “especial”. Era uma criação sua, de produção independente ao bar, que era disponibilizada via parceria.Questionei sobre a legalidade desta parceria e ele me deu a notícia mais interessante da viagem, e que traz grande felicidade para os colombianos: é legal disponibilizar para venda sua criação caseira, desde que o estabelecimento respeite uma cota máxima de 60 litros mensais. Dessa forma, é relativamente comum encontrar em casas do ramo algumas criações caseiras interessantes.
Apesar do mercado colombiano ainda ser bastante pequeno, esta permissão cria uma vantagem para os mesmos pois dão aos cervejeiros caseiros uma forma de sustentar sua produção, mesmo que limitadamente devido ao volume, criando condições favoráveis ao aparecimento de novas cervejas e de negócios legalizados derivados desta atividade. Talvez não tenham criado esta legislação com tal intenção (da mesma maneira que aconteceu nos EUA), mas se a história dos norte americanos se repetir com os Colombianos, mesmo que só em pequena parcela, acredito que conseguirão se desenvolver mais rapidamente que outros países. Dada a quantidade de pessoas que estavam nos bares de cerveja artesanal que eu visitei, acredito que é questão de tempo para este mercado representar um bom negócio.

Balcão de um dos inúmeros pub espalhados por Bogotá
Balcão de um dos inúmeros pub espalhados por Bogotá de uma cervejaria local, com suas torneiras à esquerda. São diversos rótulos e estilos que são bastante populares por lá.

Fato é que cada país tem sua particularidade e forma de encarar as coisas, mas é interessante fazer este tipo de comparativo, ainda mais se considerarmos as boas experiências como passíveis de adaptação para a nossa cultura e evitar os erros das más experiências. No entanto, quem legisla por aqui não parece estar muito interessado em olhar pra fora.

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