Ciganas: saída para os caseiros viabilizarem suas criações

Vagar de um lugar a outro. Essa pode ser a ideia principal que nos vem à mente quando pensamos no termo cigano. Mas quando este termo está associado as cervejarias, o que significa?

Nem toda cerveja disponível atualmente nas prateleiras tem uma fábrica fixa. Este é o significado de uma cervejaria cigana: cervejarias que utilizam da capacidade ociosa disponível em outras cervejarias para produzir e colocar suas cervejas no mercado. Os ciganos fazem contratos com as cervejarias fixas para que estas produzam, em seu nome, suas cervejas.

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O modelo de utilização de capacidade ociosa não é novo na indústria. Tampouco o modelo de produção sob contratos. Para quem vive nas grandes cidades é um fato comum e já presente há vários anos nas grandes redes de supermercados produtos com a marca própria, como por exemplo, milho enlatado. É claro que a rede de supermercados não tem uma fazenda de produção de milho e nem mesmo uma fábrica. Eles compram o produto de algum beneficiador (como por exemplo, cooperativas) e colocam sua marca. Neste caso, a motivação é aumentar a margem de lucro através de uma pseudo verticalização da cadeia produtiva. Um outro exemplo recente pode ser observado nos voos de companhias aéreas, que fornecem seu lanchinhos com marca própria, mas na verdade são produzidos por algum fabricante de alimentos.

Trapa das Alterosas - Irish Red Ale: Avermelhada (acobreada). Herbáceos, frutados, leve caramelizado e um quase imperceptível tostado ou toffee. Corpo médio-leve a leve e final breve e levemente adocicado. 6% alc. vol.
Trapa das Alterosas – Irish Red Ale: Avermelhada (acobreada). Herbáceos, frutados, leve caramelizado e um quase imperceptível tostado ou toffee. Corpo médio-leve a leve e final breve e levemente adocicado. 6% alc. vol.

No caso da cerveja, este modelo ganhou força com o advento da revolução da cerveja artesanal, ou seja, com o aumento de produtores caseiros. Mas o que os caseiros têm a ver com os ciganos? Há uma grande quantidade de cervejarias fixas e ciganas que iniciaram suas atividades a partir do sonho de um cervejeiro caseiro. É um ciclo natural que vem sendo observado em todo o mundo: uma pessoa passa a produzir cerveja para consumo próprio (homebrew); esta cerveja começa a fazer relativo sucesso em seu círculo social (familiares, amigos, colegas de trabalho, etc.); o homebrewer então começa a fazer pequenas vendas aqui e ali, incentivado pelo sucesso do seu produto artesanal; após um tempo, a coisa toda começa a ficar maior e uma saída é alugar o espaço de alguma cervejaria e se tornar um cigano, pois assim se regulariza e pode alcançar os pontos de venda formais; em um terceiro momento, alguns migram para a construção de suas próprias fábricas, fechando o ciclo.

As ciganas por aqui

Este foi o caso da Cervejaria Trapa das Alterosas, do nosso colega aqui do Cerevisiae, Frederico de Castro. Ele e alguns amigos iniciaram seu interesse em cervejas especiais através de degustações, principalmente da escola Belga e trapistas. Após um tempo, decidiram partir para a produção caseira, e com o sucesso das suas receitas decidiram abrir a Trapa das Alterosas, uma cervejaria cigana que conta com dois rótulos fixos (Irish Red Ale e uma Oatmeal Stout; disponíveis apenas no Jack’s Burguer and Grill, Belo Horizonte, MG) e outros tantos sob os conceitos de Brew on Demand (produção que toma como base uma pré-venda) e Brew Club (produção para um clube de associados).

O nome Trapa das Alterosas foi inspirado na história das cervejarias trapistas belgas. Quando um novo mosteiro da Ordem Trapp era fundado, os primeiros monges a serem designados para a tarefa de estabelecimento das atividades eram mestres cervejeiros, que começavam no local a produção de cervejas para financiar a construção das instalações. Assim, estes primeiros locais eram chamados de Trapas. Da união desta história com montanhas de Minas, marca registrada do nosso estado, surgiu a Trapa das Alterosas.

Embora seja uma ótima opção para quem quer sair da informalidade, a vida das cervejarias ciganas não é fácil. Há quem questione o modelo dizendo que os cervejeiros ciganos não são conectados com a história e presença local, uma característica forte do movimento cervejeiro atual. Dessa linha de questionamentos surgiu uma nova vertente, chamada de colaboração ou associação, que embora tenha o mesmo conceito de utilização de capacidade produtiva por aluguel, evoca uma participação conjunta e responsável entre as cervejarias envolvidas resultando em produtos que reflitam a identidade de ambas as cervejarias, deixando de lado o conceito de um simples contrato produtivo.

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Qualquer que seja a forma como a cervejaria se estabelece, quem sai ganhando são os consumidores. Com grande demanda por novos produtos nesta área e com o surgimento de novas fábricas o casamento entre fixos e ciganos / colaborativos / associados surge como uma alternativa para viabilizar os empreendimentos e disponibilizar novos produtos ao público. Já temos casos de cervejarias ciganas com prêmios de destaque em campeonatos internacionais, como por exemplo, a Cerveja dos Caras, medalha de bronze na categoria California Commom Ale na Copa Cerveza de Americas 2016, realizado no Chile.