Do céu ao inferno: artesanais no interior do país

Serra na região de Ouro Branco

Em uma viagem de final de semana pelo interior do Estado acabamos descobrindo algumas cervejas. Estivemos no céu e descemos ao inferno em uma mesma tarde de degustação. No final, ficamos só com o céu, mas há uma mensagem importante a ser avaliada.

Foi uma viagem simples ao interior de Minas Gerais. Partimos de Belo Horizonte logo pela manhã de um sábado em direção a Ouro Branco, cidade de aproximadamente 35 mil habitantes situada na região de Ouro Preto, sua irmã mais famosa. A cidade faz parte da Estrada Real, e tem belíssimas paisagens naturais. Embora não tenha o glamour da sua vizinha e irmã devido a motivos históricos óbvios, para quem gosta de natureza e das belezas de Minas a visita é bem interessante. Um casal de amigos que vive em Ouro Branco fez as honras da hospedagem e dos passeios pela região. Visitamos belas montanhas e caminhos da Estrada Real, em que a paisagem fala por si só e define o ritmo da vida na região. Uma paz.

Certamente a paisagem acima inspira o relaxamento. Em um café da cidade, encontrei alguns exemplares da cerveja local. Na verdade, eu nem tinha ideia que haviam cervejarias em funcionamento na cidade, e a viagem nada tinha a ver com cerveja. Mas é isso que é intrigante e emocionante neste mundo cervejeiro: a descoberta de quase infinitas possibilidades de poder degustar uma receita nova, diferente, mesmo que baseada naquele “velho e clássico” estilo. Acredito que este deve ter sido um dos motivadores do Michael Jackson (o caçador de cervejas, não o artista) a sair pelo mundo buscando novas amostras.

Compramos algumas amostras e fomos embora degustar em casa, sem nenhuma pretensão a não ser de experimentar. Dentre as cervejas que compramos havia uma Saison, uma American Pale Ale (ambas da Arquen) e uma Pale Ale (de um outro produtor), tudo de acordo com os fabricantes. Como assim de acordo com os fabricantes? Bem, esta é a parte do inferno: a Pale Ale em questão era qualquer coisa exceto Pale Ale. Na verdade estava mais para uma Sour, de tão azeda e ácida que estava. Percebi que provavelmente tiveram problemas na fermentação ou engarrafamento, alguma contaminação, pois verificando alguns registros de pessoas que a degustaram antes, ninguém relata tal experiência.

O interessante nesta história é que a atendente do café, ao indicar as cervejas que possuíam, nos disse que a Pale Ale não era para qualquer paladar. Achei estranho, porque Pale Ale tem que servir a qualquer paladar, mas fiquei curioso para entender a afirmação.

Agora posso afirmar, categoricamente, que não era para nenhum paladar. Cerveja estragada não pode ser comercializada, e aí entra a questão da regulação da cerveja artesanal. Como os pontos de venda, os funcionários dos pontos de venda e o público em geral vão se certificar que estão consumindo um produto de qualidade e próprio para consumo?

Este é um bom exemplo de que, atualmente, com a grande expansão do setor, estamos sendo bombardeados com produtos supostamente de alta qualidade, porém que não fazem jus ao rótulo que levam. Métodos de produção e controle de produção inexistentes ou fora do padrão e mesmo o desconhecimento do produto que está sendo vendido são fatores para este tipo de acontecimento.

Guia da regulamentação da cerveja artesanal no Brasil

O outro lado da moeda, o nosso “céu”, veio com as outras duas amostras, da Arquen. A Saison estava muito boa, dentro do estilo, equilibrada, bem carbonatada mas sem excesso, refrescante. Todos gostaram. A American Pale Ale estava muito boa também, dentro do seu contexto de um pouco mais de amargor e bastante cheirosa, com lúpulos aromatizantes destacados. Ambas belíssimas surpresas, tanto no paladar quanto no visual. Os rótulos são trabalhos de arte muito bonitos, bem feitos, que valorizam os produtos e trazem ao consumidor as melhores sensações possíveis, pois quando se paga caro por algo, você quer sentir o retorno em todos os aspectos. Ficamos muito impressionados e os nossos amigos, inclusive, se sentiram tão orgulhosos do produto local (que até então desconheciam) que manifestaram desejo de enviar uma mensagem de felicitações a cervejaria.

Do céu ao inferno, um resumo das sensações em uma tarde de degustação de cerveja artesanal em uma pequena cidade do interior do país. Temos muito que avançar neste aspecto e a regulação da cerveja artesanal é algo que urge dentro desse contexto, para garantir a saúde da população e qualidade dos produtos. No entanto, gratas surpresas sempre aparecem e renovam a fé no avanço da cultura cervejeira. Visitar uma pequena cidade e provar uma cerveja de qualidade, bem produzida, bem estudada, feita por quem entende do assunto e busca primazia em todos os sentidos é sem dúvida, o que me faz buscar cada vez mais experimentar o máximo possível!

Arquen Saison (Saison / Farmhouse Ale)

Cerveja natural de Ouro Branco, MG, apresenta sabores frutados adocicados e levemente ácidos com boa carbonatação, resultando em uma excelente experiência de degustação. De cor levemente pálida e embalagem muito bonita, além do sabor, enche os olhos do degustador.

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ABV:5.2%
IBU:26

Arquen APA (American Pale Ale (APA))

Natural de Ouro Branco, MG, é uma cerveja caracterizada pelo amargor mais presente de lúpulos americanos, sem perder o doce característico das Pale Ale. Além disso apresenta um aroma de lúpulo e cor avermelhada, completando o paladar e olfato com um belo visual.

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ABV:5.1%
IBU:29