A Corrida do Ouro Cervejeiro

Com tantas cervejas disponíveis atualmente, estampar uma nova receita em uma torneira de um bar virou algo complexo e exige muito profissionalismo.

Nas últimas semanas fiquei bastante impressionado com a quantidade de bares, cervejarias e cervejas disponíveis em uma pequena área do Rio de Janeiro. Embora estejamos falando de uma área com grande densidade populacional e coração turístico do Brasil, ainda assim é incrível a proliferação de produtos disponíveis para os amantes da cerveja. Ótima notícia para quem consome. Na verdade, tem hora que é difícil escolher o que colocar no copo, e as vezes a tarefa leva mais tempo que o ato de aproveitar a bebida. Na minha visão se você estiver pensando demais pra escolher a próxima rodada, acho que tem algo errado…

Enfim, fato é que do ponto de vista das cervejarias a coisa virou uma verdadeira corrida. Imagine quanto esforço é desprendido para atrair a sua atenção. Ter sabor, qualidade e disponibilidade todo mundo já imagina de cara. Mas tem mais coisas por trás de uma boa cerveja. Do rótulo, o nome, campanhas de lançamento e marketing de vendas, tudo é detalhadamente observado e pensado. Quero dizer, deveria ser pensado.

Ciganas: saída para os caseiros

Este é o ponto. Os cervejeiros tem cada vez mais que pensar no ciclo de vida dos seus produtos. Não basta ter uma receita saborosa. É preciso saber vender, saber distribuir e saber atingir o público correto. E como as cervejarias tem feito isso?

A ação mais eficaz de vendas ainda é ganhar um campeonato. É o reconhecimento de que a receita é saborosa, bem feita. Muita gente critica esta forma de inserção, sobretudo porque algumas cervejarias aparentemente não continuam fiéis a receita campeã quando em produção comercial.
Outras ações vem sendo realizadas com sucesso, como lançamentos de tendências acompanhando “modas” ou “comportamentos” consumidores. Um exemplo é o grande frenesi sobre o sub estilo New England IPA ou Juicy IPA. Praticamente todas cervejas que bebi no Rio nas últimas semanas foram versões nacionais de NE IPA. Excelentes, por sinal.

Acompanhar este mercado exige profissionalismo. Não dá pra atirar no escuro. As cervejarias atualmente tem apenas o “rótulo artesanal”, significando que o produto na verdade é “especial”, de qualidade. Mas o fato é que ninguém sobreviverá com técnicas rudimentares de gestão dos seus produtos. Estudar o momento de entrar no mercado, a forma de entrar, como crescer e como e quando matar (sim! É preciso!) o produto é fundamental. Por exemplo, é possível que as NE IPA fixem raiz como estilo ou sub estilo, mas e se não ficarem? Qual será a próxima? O ciclo de vida das cervejas artesanais, em especial as que contém inovação ou introdução de ingredientes ou processos que diferenciam significativamente o produto final, é diferente do ciclo de vida de uma receita comum de estilo consagrado. As cervejarias precisam saber disso.

Curva base teórica do ciclo de vida de um produto. As vendas variam de acordo com o tempo, e cada fase exige uma estratégia diferente de posicionamento diante do mercado.

Nós consumidores não temos que visualizar isso como algo ruim. Pelo contrário, a competição vai trazer a inovação e ao final quem ganha somos nós, com produtos melhores. É claro que há sempre a ressalva do marketing mal construído, sem fundamento. Mas quando o produto é bom, o marketing faz sentido. Vejam os exemplos dá Wals (MG), Bodebrown (PR) e Hocus Pocus (RJ). A primeira faz há muito tempo (muito antes dá AmBev) um trabalho de inovação e composição dá marca que rendeu fiéis consumidores. Afinal, o produto é muito bom. Já a Bodebrown e a Hocus Pocus tem um conceito de marca, nome das cervejas e bastante inovação e maestria na execução das receitas. A Hocus Pocus, por exemplo, vem conquistando seu lugar e despontando como uma cervejaria a ser conhecida no Rio e no Brasil,  competindo de igual pra igual com qualquer ícone, assim como a Bodebrown já o faz. Qualquer cerveja que a HP lançar eu me disponho a provar (obs. A Overdrive é uma NE IPA sensacional que vale muito a pena experimentar).

Uma enchente inusitada: cerveja Porter!

A gestão do negócio (como em qualquer outra área de negócio) passou a ser fundamental para a sobrevivência e para a inserção de novos produtos no mercado. Já passamos o tempo do oceano azul (termo utilizado quando um mercado está totalmente inexplorado) e qualquer passo daqui pra frente exige cuidados. A magia do cigano que largou tudo pra investir em uma cervejaria da noite pro dia começa a virar mito, embora sempre haja espaço para bons produtos. Portanto, quem souber gerir o seu produto em função das mudanças do mercado, sobretudo utilizando técnicas profissionais e eliminando o “achismo”, certamente sairá na frente dos demais. É um belo jogo de xadrez!

Bom pra gente, bebedores ávidos por novidades!