Uma Enchente Inusitada (de Porter!)

Quem nunca sonhou, quando criança, em mergulhar no rio de chocolate da fábrica do fantástico Willy Wonka? E em um rio de Cerveja!?

Pois é, algumas pessoas passaram bem perto disso em Londres há bastante tempo. Não foi mágico e tão pouco foi um evento considerando bom. Na verdade foi bem trágico e causou a morte de 8 pessoas, quando de repente, um imenso barril de Porter se rompeu e tornou ruas da antiga Londres em rios de cerveja.

Um rio de cerveja. O sonho do imaginário de muito marmanjo por aí. Mas não é uma coisa tão agradável quanto parece ser. O evento aconteceu em Londres há cerca de 200 anos atrás, na cervejaria Henry Meux’s Horse Shoe Brewery. Um grande barril de Porter que maturava no estoque da cervejaria se rompeu e liberou mais de 570 toneladas de cerveja, rompendo as paredes da cervejaria, inundando ruas e porões das casas e prédios por onde passou com ondas de até 4 metros de altura!

O impacto foi tão grande que matou 8 pessoas e feriu uma quantidade razoável, ficando conhecido como a “Grande Enchente de Cerveja de Londres”. O evento vem atraindo o imaginário popular e várias histórias paralelas são contadas atualmente, como por exemplo, que além das pessoas que morreram afogadas, muitas outras também haveriam morrido porque entraram em coma alcoólico ao ingerir largas quantidades de cerveja. O motivo é que a enchente teria causado um frenesi inverso na população, que teria sentido o cheiro da Porter e pensou que estariam distribuindo cerveja grátis, correndo para as ruas para coletar e beber o máximo possível. Apesar de “plausível”, o evento não teria sido relatado em nenhum jornal de Londres na época, e definitivamente não é verdadeiro.

Aliás, os jornais da época reportaram justamente o contrário, dizendo que rapidamente equipes de resgate e cidadãos que passavam pelas ruas acolheram os feridos e envolvidos na enchente. O relatório do legista descreve com bastante detalhes o evento. O acidente foi causado pelo rompimento de um anel de ferro que compunha a armação que une as tábuas para formar um barril. E não era qualquer barril. Apesar de ser considerado um dos menores barris do estoque da cervejaria, era imenso. Tinha cerca de 6 metros de altura e possuía 22 anéis destes anéis em sua armação. Tudo pesava cerca de 35 toneladas, segundo o registro do legista! E segundo uma escritora da época que visitara a cervejaria dois anos antes, haviam barris de 21 metros de diâmetro que possuíam anéis que pesavam até 8 toneladas cada, sugerindo que o que se rompera era um dos menores entre os cerca de 70 disponíveis. Era uma grande cervejaria abastecendo a sedenta Londres de Porters.

Meux Brewery em 1830

Bem, Londres viva as Porters. E para isso a produção era enorme, e armazenada em grandes barris para maturação. Naquela época o gosto Londrino variava de pub pra pub, ou seja, apesar de apenas um estilo, haviam grandes variações de sabor. A cerveja era maturada por longos períodos de tempo (a do barril do acidente em questão tinha 10 meses) em grandes barris para evitar a oxidação. Havia apenas um pequena área de contato com o ar em relação ao volume total armazenado, o que reduzia os efeitos deste problema e produzia, através da maturação, sabores mais complexos, ligeiramente acidificados. Quando pronta, esta cerveja era liberada em barris e enviada aos pubs, que no momento do serviço, misturavam com cervejas novas (não maturadas, conhecidas como mild), ligeiramente adocicadas, ao gosto do freguês. Mais doce ou mais azedinha, definida ao seu gosto, ali direto da torneira do bar. Bons tempos.

No acidente foram perdidos cerca de 8 a 9 mil barris de cerveja, cerca de 10% da produção total da cervejaria na época. Perdas financeiras de 23 mil libras, o equivalente hoje a incríveis 66 milhões de libras!!! Para compensações financeiras a cervejaria pediu ao governo que liberasse os impostos pagos em relação ao trabalho e insumos utilizados na produção perdida. Uma lei foi aprovada e eles puderam vender cervejas sem impostos por um tempo, conseguindo um benefício equivalente a cerca de 35% das perdas . Com isso a cervejaria foi capaz de se manter entre as líderes na produção de Porters até o final do século XIX.

Strange Tales of Ale

Este e outras histórias surreais sobre cerveja estão no livro Strange Tales of Ale, de Martyn Cornell.


Para quem gosta de história da cerveja, vale a pena adquirir o livro.

Histórias sobre a origem de termos, comidas, guerras, copos e cervejarias. Ou seja, se teve relação com cerveja e é “estranho”, está no livro. Mr Cornell é um premiado escritor e blogueiro inglês de cervejas. Autor de dois livros e responsável pelo blogue Zythophile.

Saiba Mais

Blogue Zythophile
O que aconteceu de verdade em 17-out-1814?